quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Dias... de todos nós....

"As visitas dos mortos que se amou são uma prova de amor. O amor que tiveram por nós vai aparecendo, como uma visita quase regular, porque se revela em gestos lembrados." Miguel Esteves Cardoso, Público, hoje
Todos os dias a minha memória e o meu coração prestam uma homenagem aos meus. Talvez os visite, para usar as palavras do escritor, através do que me deixaram. A vida, legado dos meus pais e avós! Os ensinamentos ou lições para ser feliz ou fazer felizes os outros. Dou-lhes conta das minhas falhas, dos meus erros e dos meus desvios. É um culto de memórias de momentos bons e felizes. É o culto que dói menos...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Ir a Peniche e ..... voltar


  O Cabo Carvoeiro. É o rosto assustadoramente triste, onde, em rugas de tragédia, corre o sal das lágrimas da terra e da gente de Peniche.
Há traços  que documentam o destino de um povo que vive paredes meias com o mar,  que se embrulha em salgada vizinhança com intuito de trazer o peixe que alimenta o sonho de ver crescer os filhos....
Mas Peniche não é apenas dor. Não é apenas labuta! Também é prazer, festa e escola. Há neste mar e nesta terra, como em todas as gentes, esse lado de festa, com uma dança que se dança em cima de ondas que tocam a música de sempre: a sua, a do mar. Peniche é também um santuário do surf, assim se chama, e aí acorrem os mais novos para prender e aprender todas as sensações que uma crista de onda oferece. E é vê-los passar de prancha às costas, em jeito de procissão.
E há a coragem de resistir, mesmo quando os olhos só vêem mar e fragas! A coragem de acreditar que outros tempos darão testemunho desta luta que não se trava senão com armas feitas de ideal e desejo de liberdade.
E Peniche veste-se e cobre-se com um manto tecido de gotículas de água salgada. E esconde-se sob esse manto! E esconde, sob esse manto, um azul inigualável! 
Que o sol descobre se assim o quer!
Quem vai a Peniche traz tudo isto nos sentidos! 
Ir a Peniche e... voltar!





segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O Dia da Avó Madalena Primeira

Hoje é O Dia de falar da minha avó Madalena, um dos pilares importantes de todo o meu ideário, sobretudo no que toca aos valores da família! De tal maneira que sempre sonhei chegar a esta etapa e seguir as receitas de afecto da minha avó Madalena!
Seria o dia de recordar a sua imensa figura, os seus olhos imensamente verdes. Acho que os olhos da minha avó eram tão expressivos que dispensavam as palavras. Eles diziam o que era preciso dizer! Tinham aquela maroteira que anula a maldade, a má intenção!
As tardes eram domínio das mulheres. Num quartinho estreito, numa cama de ferro muito alta,nós, as mulheres pequenas, dormíamos a sesta enquanto as grandes cosiam, bordavam, faziam crochet e falavam bem e mal de quem ou quê aparecia como tema.
Hoje era o seu aniversário. Se as minhas contas estão certas a Avó Madalena Primeira nasceu há 125 anos!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Letras assinadas, de Baptista Bastos

No paredão austero da Mundial, onde a prudência administrativa mandou pespegar uma lápida: «É proibido afixar anúncios nesta propriedade», um miúdo de metro e meio de altura escreveu a carvão estas letras infamantes para a higiene do edifício: «Viva o Benfica».
  O miúdo não percebia de leis, pelos vistos. O miúdo não sabia que homens muito sábios, muito avisados e muito prudentes têm escrito milhares de palavras de ordem - e que essas palavras de ordem foram articuladas para serem rigorosamente cumpridas. O miúdo só sabia que tinha uma mensagem para dizer, umas palavras que eram a ordem das coisas e a própria expressão do seu mundo: «Viva o Benfica». E o miúdo escreveu-as. Em letras grandes, mal feitas, mas grandes e arrogantes. Limpou as mãos aos calções e ficou a espiar a sua obra. Faltava lá qualquer coisa. Tornou a pegar no carvão e escreveu: «Manel». Responsável pela afirmação, o Manel não quis que ela ficasse anónima. A sua responsabilidade começou a partir daí. Um polícia aproximou-se lentamente. Viu tudo. E, como as leis são feitas para se cumprirem, agarrou num braço do Manel. O Manel a princípio ficou surpreendido e perplexo; depois, como ter medo é próprio dos homens, o medo apareceu-lhe em veios por todo o corpo, para se exprimir finalmente em resistência e lágrimas. 
  Começou a juntar-se gente. Manel gritava e o polícia manifestava firmeza na mão e indiferença no olhar. Com razão ou sem ela, a verdade é que as pessoas que formavam roda penderam em simpatias e inclinações para o miúdo-pardal-de-telhado que estava à beira de ser engaiolado. O polícia, certamente, começou a pensar que uma situação absoluta é horrível - concluindo para os seus botões de metal, que «nem tanto ao mar, nem tanto à terra», que é um belo aforismo, muito profundo e muito reverente. Afrouxou a pressão que fazia no braço do Manel. Afrouxou também a tensão que se estabelecera entre as pessoas que miravam a cena. Manel deu por isso com os seus olhos espertos e traquinas. E correu. E escapou-se. Porém, antes de virar à esquina, voltou-se para trás e gritou para o polícia:
  – Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?


Baptista-Bastos  (1934 - 2017)

Conheci este texto num livro da escola, um manual de Português. Encantou-me. Nunca o esqueci. Hoje consegui encontrá-lo na net, num blog, ao dono do qual eu agradeço a publicação e tê-lo trazido para aqui. 

Baptista Bastos, o Manel e o paredão da Mundial

A vida dá e tira e é difícil fazer a gestão correcta através de um critério de justiça universal. Tudo o que de mal nos toca e nos causa sofrimento provoca um sentimento de injustiça imerecida. E a vida passa e a dor dói para sempre. 
Mas a vida, ou o destino traçado, ou não, também nos envia momentos felizes e inesquecíveis que deviam funcionar como bálsamo para os outros menos bons.
Mas nada disto está nos compêndios e há aqueles queixumes modernos: "A vida não traz livro de instruções!"
Mas lá para o outono/inverno começamos a reflectir e as coisas boas vêm à tona da memória e provocam boas emoções.
Se o passado pudesse ser mudado, outro galo cantaria, mas felizmente não pode: o que foi bom, foi bom; o que foi mau, foi mau.
Nos últimos tempos têm saído de cena vultos ilustres do mundo das artes que deixam o seu passado connosco, a sua vida, em suma, em verso, em prosa, em dó ré mi, a cores ou a preto e branco, esculpido a escopro e martelo.
Ontem foi BB que saiu da vida. Os que o conheciam e o amavam choram o homem, o marido, o pai, o amigo.... Outros, como eu, que o conhecia dos caminhos das palavras, ando à volta delas á procura de compreensão para uma ausência que era escusada (porque é sempre o que pensamos imediatamente) e ainda por cima é definitiva.
E assim andei hoje, todo o dia, aos encontrões com o "paredão austero da Mundial" onde era proibido afixar anúncios e um miúdo que "não percebia de leis" nem de avisos, escreveu : Viva o Benfica! E ainda por cima assinou: Manel!
Depois apareceu o Senhor Guarda que agiu conforme o seu entendimento do cumprimento das regras e agarrou o miúdo.
Juntou-se gente, como é costume e todos se começaram a sentir mal com o espectáculo. O guarda largou o miúdo, dando, como quem não quer a coisa, a oportunidade de fugir, para alívio de todos.
E o Manel ainda gritou a uma distância de segurança: " Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?"
No tempo em que eu dava estas aulas não havia contadores de visualizações. Se houvesse, o BB ia adorar saber quantos milhares gostavam de o ler.
Eu cá partilhei este texto com centenas de alunos!
Adeus, BB! Obrigada pelas palavras que guardaremos para sempre!

segunda-feira, 27 de março de 2017

As horas

Demos um salto no tempo e cá estamos nós, com uma hora a menos de sono e de sonhos de um mundo melhor. 
 Mais vale dizer "devaneios", já que o sonho de um mundo melhor parece perder consistência e desfazer-se na tal espuma dos dias. 
Agora, não se pode ler/ver/ouvir notícias. É crime, tragédia, horror...